ORNITORRINCO

TUDO O QUE SE SABE DE CORAÇÃO


Ainda penso muitas vezes na tia Kátia da secretaria. A tia Kátia da secretaria datilografava sem olhar. A primeira vez que me contaram isso, eu devia ter 10 anos, não podia acreditar.

– Quer dizer que ela sabe onde estão todas as letras e bate nelas sem olhar?
– Todas.
– Caraca.


Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Precisava ver aquilo acontecendo diante de mim. Pensava nisso toda hora. Pensava, às vezes, no meio dos treinos de passe, na escolinha de futebol: tia Kátia datilografa sem olhar de tanto que ela sabe onde as letras estão.

A tia Kátia era inteirinha branca de vitiligo, e loira de um loiro entre o feio e o bonito; uma tonalidade feita sob medida pra ela, algo entre um suco de acerola aguado e um suco de caju aguado.

Quando, pela primeira vez, olhei – de verdade – o teclado de uma máquina de escrever, e percebi que a posição das letras nas teclas não vinha em ordem alfabética – como eu esperava – mas de um jeito misturado estranhíssimo, como se tivessem sido jogadas ao acaso e deixadas ali pra sempre do jeito como caíram, quase morri.

– Mas mãe, por que não botaram as letras em ordem alfabética, do lado uma da outra, pra facilitar?
– Ah, tem uma explicação, mas eu esqueci.

Tudo de olhar o que as pessoas faziam sem olhar me maravilhava.

Passar a marcha do carro sem olhar eu achava lindo. Meu professor de teclado tocando teclado sem olhar, lindo. A mulher dele tocando violão sem olhar, lindo. Tudo o que se sabia de coração.

Nunca mais ouvi falar de alguém que tenha feito um curso de datilografia. Isso é triste. E justamente agora que qualquer um digita, cada um a seu modo, sempre um jeito inventado, adquirido sem querer. Eu. Você.

O que é muito curioso. O que do ponto de vista da tia Kátia – o meu Nelson Freire das palavras  – seria como se, subitamente, qualquer um pudesse passar a construir pontes, prédios, arrancar dentes, trazer bebês ao mundo.

Quem toca um instrumento musical sabe o quanto é importante a posição dos dedos para o que vai ser executado. Pode-se passar muitos anos treinando apenas a posição dos dedos.

Gosto de reparar o jeito como as pessoas digitam, e sinto um apreço que não sei se é saudade ou pena, quando vejo, por exemplo, alguém digitando extremamente rápido, apenas com os indicadores. É preciso aceitar os novos tempos.

Há pouquíssimos dias atrás vi que sou capaz de escrever algumas palavras sem olhar. Também aprendi sem treinar. Também aprendi sem aprender. Pensei na tia Kátia. Pensei no Nelson Freire. É preciso não sentir tanta saudade. 

E viva o backspace.

Keli Freitas é atriz, dramaturga e colunista do ORNITORRINCO.

Anúncios

Um comentário em “TUDO O QUE SE SABE DE CORAÇÃO

  1. Malu Saldanha
    06/05/2013

    Uma vez perguntei “Keli, posso ler sua agenda (diário)? “pode!” e eu li! Durante a apresentação de um espetáculo, eu saía do palco e entre uma cena e outra, corria para o camarim para ler! Louco isso! Correndo o risco de não ouvir a deixa! E eu devorava aquela agenda como se fosse o mais profundo dos romances…
    Suas palavras sempre me encantaram!
    Parabéns querida!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 05/05/2013 por em Keli Freitas.
%d blogueiros gostam disto: