ORNITORRINCO

OITO MOTIVOS PARA SORRIR


William Edmonds

Um) A Julia Mares, porque é uma garotinha adorável que fala meu nome sem me ver em tardes do meio da semana e é ao mesmo tempo uma pessoa inteira e um pedaço de duas pessoas que eu amo e todo esse amor, o meu por eles, o deles por mim, se derrama sobre a cabecinha dela em gargalhadas e olhos marejados.

Dois) Eu desbravando o vento sobre uma bicicleta. Porque levei trinta e quatro anos pra ganhar roxos na coxa e graxa nas canelas, porque arranquei a etiqueta de mais esse “não” da minha testa, porque ali tenho quatro anos incompletos, e tudo é conquista e a alegria da descoberta.


Três) Dançar axés escolhidos a dedo em manhãs de domingo na sala de casa ou em terças-feiras ensolaradas na areia da praia com o mar lambendo os pés, num canto rebolando descarada, noutro segurando os quadris com a discrição possível. Porque sim.

Quatro) Bebês e gatos. Bebês sempre, gatos agora. Bebês quaisquer, gatos em especial uma fêmea branca que soltava pêlos nas minhas calcinhas e que eu nunca mais vi e provavelmente nunca mais verei mas pra quem eu sorrio em pensamentos e fotos. Gatos e bebês. Bebês brancos, bebês pretos, encasacados, de olhos puxados, bebês de sunga, bebês trigêmeos, bebês primos e bebês distantes, em carrinhos ou no colo, mais ao vivo que na tv, mamando, dormindo, fazendo a careta do cocô, abrindo os olhos em câmera lenta, sorrindo sem querer. Porque eu tenho útero e ele fala.

Cinco) Dias de sol e céu azul sem suor escorrendo atrás dos joelhos, porque a vida é uma sacana maravilhosa e eu não resisto quando ela bota biquíni de lacinho e desfila gostosa assim na minha frente.

Seis) Um bom poema. Pode ser triste, lírico, pesado, rimado ou não, irônico ou delicado. Quase sempre em português, quase nunca em tradução. Quando ele é meu e acaba de cair no mundo – caneta afora, afeto adentro – o olho brilha junto com a boca. Porque o encanto da poesia não gasta jamais.

Sete) Acordar apaixonada. Estar apaixonada a qualquer hora, mas as manhãs vêm com uma safra especial de sorrisos pro meu rosto. Porque acordar com um homem amado dormindo ao lado é voyerismo sem binóculos, porque é ver o amor começar outra e outra vez, porque o rasgo de sol que invade o quarto ilumina o sentimento, porque quando é ele que acorda primeiro o amor dele me desperta como um vento leve, porque tudo que é bom fica ainda melhor de manhã.

Oito) A infância em recortes da memória. Porque ela foi foda. Porque ela ainda é, porque eu sou aquela menina com mais peito, com mais pernas, com mais roxos por dentro e por fora, com menos dentes moles, com o coração mais duro mas cheia da mesma alegria, da mesma esperança, da mesma capacidade boba de achar a vida boa e sorrir com muito mais que oito coisas. 

Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 05/05/2013 por em Maria Rezende.
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