ORNITORRINCO

NUNCA GOSTEI DE TEATRO



O Pardal me pediu um texto de uma primeira experiência que eu pudesse ter tido com arte ou coisas do tipo. Lembrei deste texto abaixo. Eu escrevi isso pro programa da primeira peça que eu escrevi, em 2008. A única correção é que a palavra “masturbando” foi colocada no lugar da expressão “tocando uma punheta”, por razões institucionais. Aí vai:


Nunca gostei de teatro. Desde pequeno. Verdade. Não é só uma frase de efeito, e eu sei que os críticos mais inspirados podem usá-la contra mim. Mas, fazer o que? Eu me lembro até hoje da primeira vez que eu me lembro de ter ido ao teatro. Experiência estranha. “Algemas do Ódio” era o nome da peça. Eu tinha então meus oito anos e aquele era uma espécie de programa familiar já que minha prima era atriz da peça. Eu sentei na primeira fila do teatro nacional, em Brasília. Eu lembro que via o suor escorrendo nas caras maquiadas de branco. As pequenas gotas de baba que chegavam até o limite da minha poltrona. As veias, as rugas, os amassados no figurino. As marcas que os sapatos deixavam no chão de madeira, exatamente na altura do meu nariz. E minha prima estava ali, fingindo que era uma pessoa que eu não sabia quem era, e não me interessava saber. Eu achava estranhas aquelas vozes. Eu me perguntava realmente o porquê de tudo aquilo. Nada fazia sentido. Até que, de repente, um dos atores falou em voz alta, sem nenhum aviso, algo parecido com a seguinte frase: “essa hora ele deve estar se masturbando em casa”. Eu gelei! Meu bom deus, eu tinha oito anos… claramente eu não podia ouvir uma coisa dessas… principalmente sentado do lado da minha bendita mãe! No mesmo espaço físico estávamos eu, minha mãe, o ator descuidado que não havia atentado para aquele pequeno anão albino sentado na primeira fila, e a palavra: “masturbando”. Minha mãe também tinha ouvido, minha mãe sabia que eu tinha ouvido. Ouve um momento de suspensão entre nós três. Pelo menos assim eu lembro. Depois ele continuou com a peça e eu deixei de ouvir de novo. A palavra ressoava na minha cabeça. A partir daquele momento eu sabia que minha mãe sabia que eu sabia o que aquilo queria dizer. Estávamos todos vivos no mesmo instante, nós três e a palavra. Respirando o mesmo ar. Era inegável. Pra mim, é disso que se trata. Teatro. Desse instante. Onde tudo se encontra, e se implode. Não tem nada a ver com personagens, ou textos, ou narrativas, ainda que tudo isso possa existir. Tem a ver com o instante. Com esse instante parado no ar onde algo se materializa, onde algo existe. São instantes de materialização. Alguma coisa vira ato, vira matéria. Uma memória vira voz, vira cheiro. Ali, na sua frente, algum fluxo de imagens vira coisa. Alguma coisa parada, morta, vira fluxo. Vive. É só isso que eu vejo. A peça, eu não sei muito bem do que se trata. Nem a dos meus oito anos, nem esta. Nenhuma. Pra mim, uma peça é um jeito de haver existência, de haver presença. Lugar onde podemos presenciar alguma vida.



Emanuel Aragão é escritor, dramaturgo, diretor de teatro e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 05/05/2013 por em Emanuel Aragão.
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